terça-feira, 7 de março de 2017

[Vilson no TNB] Seres das Sombras 2



Oi, pessoal! Como hoje é terça-feira, venho trazer mais um capítulo de Seres das Sombras, a série de V. M. Gonçalves que narra a jornada da abayuká Mbaraká. Os primeiros capítulos podem ser encontrados aqui e aqui. Aproveite a leitura e logo, logo eu volto para trazer uma surpresinha para vocês!
 

Capítulo II: Destino

A última noite no acampamento foi marcada por lágrimas e pesadelos. A capitã não disse nada enquanto sepultava sua jovem irmã, demonstrando força, mas também mostrou solidariedade chorando pelas outras sessenta mulheres e moças de seu pequeno exército, incluindo três outras yara, senhoras-da-guerra renomadas, como ela. As guerreiras aliadas, oriundas de duas aldeias vizinhas, estavam ainda mais desoladas, tendo perdido três de suas matriarcas.
Mbaraká parecia alheia a tudo isso. Sua captura havia sido um lampejo de triunfo em uma tormenta de tristeza, mas ela não cantou enquanto era carregada e aclamada entre as fogueiras. Não riu quando seu prisioneiro foi despido e zombado diante de todas as guerreiras. Quando um dos rapazes se ofereceu para alimentá-la e lavar seu rosto, ela tomou uma colherada e o encarou silenciosamente. Permaneceu em transe, calada, até cair no sono. Naquela noite sonhou que subia uma escada de corpos, sendo sempre atraída ao topo pela canção errática do muriqui.
Ela teve a honra de trazer seu cativo amarrado de volta ao acampamento, sendo recebida com gritos e apupos de comemoração. Após um dia de marcha, entrou em sua aldeia puxando-o pelo pescoço com uma corda. Enquanto o cativo era achincalhado no terreiro central, rapazes vieram acolhê-la com cerveja e mel.
O que acontecera imediatamente depois disso não estava claro. Havia momentos de trevas, lampejos de infância e saltos de imaginação. A única constante era a música subjacente a todas as imagens, pulsando em seus ouvidos como os gritos do muriqui. Algum dia aquela música deixaria de perturbar sua mente?
De repente sentiu-se mais leve que o ar. Se balançou entre os galhos, como se fosse parte do vento, das árvores e da terra ao mesmo tempo. Gritava e sentia seu corpo vibrar, como se sua voz estivesse em uníssono com todas as vozes da natureza, como se um tremor subisse do seio da terra, agitando seu corpo até as pontas dos cabelos.
Então olhou para baixo e viu a si mesma lutando contra uma onda de inimigos. A princípio sentiu-se bem em ver a si mesma. Era uma mulher feita, uma abayuká guerreira de cabelos compridos, adornada ricamente com pinturas e troféus arrancados dos inimigos pendendo de seu cinto.  Ela destruía os homens que avançavam como se fossem bonecos de palha, perfurando-os, desmembrando-os um a um. À medida que destruía mais deles, o cordão em sua cintura adquiria mais dedos, mais orelhas, mais línguas e narizes.
A onda só crescia, homens sem rosto caindo sobre ela, até que se encontrasse atolada em sangue e vísceras, seu cinto, cada vez mais pesado, puxando-a para baixo. Não seria destruída por nenhum inimigo, apenas esmagada pelo interminável fluxo de morte que era a vida guerreira.
Mbaraká acordou rasgada pelo medo. Não estava no seio familiar, mas na cabana da curandeira. Ervas secas e feixe de frutas pendiam do teto; um aroma podre e adocicado emergia da fogueira.
— Tudo bem, irmã-de-arco?
Ela viu a senhora que a liderara em batalha ao seu lado, assim como a curandeira da aldeia.
— Eu imaginava que fosse ter pesadelos. Na minha época, antes da Guerra das Irmãs e da Desolação, nós íamos à guerra mais jovens, endurecíamos mais rápido. Mesmo assim, eu tive pesadelos por alguns anos.
— E você apagou completamente por dois dias — disse a curandeira, oferecendo-lhe colheradas de algo pastoso. — Comemorar é natural, mas você não devia ter bebido toda aquela cerveja mal fermentada. Acuti é um rapaz bonito, mas masca o milho muito mal. Agora Awapé..., esse sim, daria um bom marido.
Mbaraká fez uma cara feia para o mingau.
— Espere — disse ela — Você me chamou de irmã-de-arco?
A capitã sorriu.
— Sim. Seus dias de pirralha de tipoia ficaram para trás. Você será declarada mulher assim que possível, como recompensa digna. Não é nada fácil capturar um bárbaro das árvores, ainda mais no primeiro combate. Se eu acreditasse no que dizem as curandeiras, diria que você teve ajuda mágica.
Mbaraká emitiu um riso embaraçado.
— As deusas falam em cada folha que cai — disse a curandeira, contrariada. — Elas falam em cada animal que se move...
— E em cada piolho das nossas cabeças... E em cada peido que meu marido dá durante a noite... — zombou a senhora-da-guerra.
A curandeira fez uma cara feia para a velha guerreira.
— Só segui meus instintos, — interrompeu Mbaraká. Tentou se levantar, mas sentia dores espetando cada articulação.
— Seus instintos são bons — disse a senhora. — Agora você precisa só ficar algum tempo reclusa aqui, se purgando e deixando o cabelo crescer, até que possa ser declarada mulher, e poderá executá-lo na celebração.
— Quando será a celebração? — perguntou a jovem.
— Mandamos a mensagem para as aldeias aliadas para que viessem celebrar e discutir nosso destino. Há muitas batalhas no futuro próximo, me parece. Creio que nossos convidados estarão todos presentes na próxima lua.
Mbaraká se calou brevemente, pronunciando-se com gravidade:
— Estou sozinha aqui. Nenhuma outra porta-escudos será declarada adulta junto comigo?
Suas interlocutoras encararam-na sem nada dizer por alguns instantes.
— Pelos peitos generosos de Yacy, menina, você apagou mesmo — lamentou a curandeira. — De todas as porta-escudos entre dezesseis e vinte anos de idade, só você retornou viva, menina. Tentei cuidar das poucas que sobreviveram ao combate, mas os ferimentos eram terríveis.
Mbaraká viu uma sombra cair sobre o rosto jovial da senhora-da-guerra. Sua irmã mais jovem era uma das porta-escudos que haviam tombado na luta.
— Todos esses anos sem batalhas de fronteira... — A capitã suspirou e apoiou o rosto nas mãos. — Não pudemos endurecer nossas meninas. Elas não estavam prontas para enfrentar os bárbaros.
— Nunca as abayuká perderam tantas guerreiras para seus machados. — A curandeira foi acender um feixe de tabaco na fogueira, deixando que Mbaraká se alimentasse sozinha. — Nossas ancestrais se envergonhariam de nós. Primeiro Itatinga, agora isso.
À menção de Itatinga, tanto a senhora-da-guerra quanto Mbaraká colocaram as mãos sobre os úteros, buscando a proteção da Mãe. Itatinga era um lugar amaldiçoado para sempre, e a batalha que lá ocorrera era uma mácula na orgulhosa história das abayuká. A maioria das guerreiras mais velhas ainda se referia ao evento como “a Desolação”.
Mbaraká sentiu um caos de emoções fervilhando em seu peito. Todas as meninas com quem havia crescido, todas que se tornariam abayukás de guerra junto com ela, as irmãs-de-arco com quem compartilharia o banquete de carne inimiga. Queria chorar, mas estava em choque. Se as deusas haviam falado através do muriqui, permitindo que sobrevivesse, porque só ela ouvira? As deusas haviam sido misericordiosas com ela ou cruéis com todas as outras? A massa de dúvida e tristeza em seu coração logo deu lugar à raiva.
— Onde ele está?
— Seu prisioneiro? Ali atrás. Estou me segurando para não esmurrar sua cara tatuada até arrancar cada dente. — A capitã riu amargamente. — Montamos uma cobertura para ele atrás da oca da sua família.
— E você não pode vê-lo — disse a curandeira, oferecendo a ela o tabaco. — Não até sair da reclusão. Trague.
A jovem aspirou o fumo e tossiu violentamente. A curandeira ficou insatisfeita ao observar que ela nenhum vômito saíra.
— Praga! Não posso começar as sangrias antes de você se purgar! Normalmente a combinação de mingau e fumo basta. Você é forte, menina. Trague de novo.
Mbaraká deu uma segunda tragada. Mais tosse seca. A curandeira emitiu outro palavrão, invocando as sagradas partes da deusa lunar.
— Mesmo que você não estivesse reclusa, Mbaraká, não acho que seria bom vê-lo agora — interferiu a senhora. — Não furiosa e entristecida. Eu mesma não quero chegar perto dele por este motivo.
— Quero vê-lo — retrucou a jovem, secamente.
— Não é bom sair da reclusão, menina — disse a curandeira. — É especialmente agourento conversar com sua mãe ou suas tias, e são elas que estão tomando conta do miserável tatuado.
— Não temo o azar. Você mesma disse eu fui favorecida pelas deusas.
A curandeira riu, o que era algo raro.
— É verdade. Conheci poucas guerreiras que conseguiam encontrar um bárbaro das árvores oculto na mata, e é um sinal de favorecimento. E sua mãe e suas tias estão caçando. — Ela deu de ombros. — E não começamos a purgá-la ainda. Acho que o estrago não será grande se você sair para vê-lo agora.
— Promete que não tentará matá-lo antes do tempo? — questionou a capitã.
Mbaraká fez que sim.
— Não sei se acredito, mas você é uma maldita heroína. Pode ir. Tente ser rápida. E não o mate, ou precisarei servir a sua bunda às guerreiras convidadas.
Sem se importar com olhares chocados, ela caminhou até a oca de sua família. Queria olhar seu prisioneiro nos olhos. Queria lhe dizer que ele pagaria por invadir terras abayuká.
— Vermelha!
A decisão de Mbaraká se dissolveu diante da criança sorridente que veio ao seu encontro. A porta-escudos não conseguia ser indiferente à prima. Abaixou-se e abraçou-a:
— Kuaracymiri!
— Eu queria mesmo saber onde você estava escondida, Vermelha! Mas você veio na hora errada. Todo mundo foi caçar. Precisam juntar um montão de carne para a festa! Mas eu não sei que festa é essa.
— Saiba que é uma festa para mim, então você vai querer me ajudar, não vai, Kuaracymiri?
A menininha fez que sim.
— Me diga: estão abrigando um homem estranho aqui?
— Um baixinho todo desenhado? Ele é estranho. Nós vamos comê-lo, não vamos?
— Eu não posso, porque fui eu que o capturei, mas vocês todas poderão pegar um pedaço.
— Ele tem uma cabeçona comprida. Deve ter muitos miolos lá dentro. — Kuracymiri sorriu exibindo meia dúzia de dentes de leite.
— Agora eu preciso que você me leve até ele — disse Mbaraká.
— Venha comigo, prima. Quem sabe você convença ele a comer. Ele mal tocou na nossa comida desde que chegou. Desse jeito não ficará gordinho a tempo. Uma das tias disse que ele pode engordar mais depressa se cortarmos os coquinhos dele, mas a sua mãe disse que não quer arriscar matá-lo antes do tempo.
As duas deram a volta até os fundos da oca e entraram no pequeno abrigo. Havia uma fogueira aconchegante, pilhas de bolos de mandioca, uma panela de peixe apimentado e um jarro inteiro de cerveja. Apenas um pouco da bebida havia sido consumido. Atrás dos mantimentos quase intocados, jazia um homem atado ao pilar central pela cintura.
Guerreiro tuylum cativo, por V. M. Gonçalves
 Ao seu lado estavam depositadas as grevas, os braceletes e a couraça que ele havia usado um dia. Kuaracymiri ainda estava maravilhada com aqueles equipamentos cobertos de desenhos complicados; parecia que o couro e a madeira haviam sido moldados com magia. O homem em si tinha uma aparência insólita: era baixo e forte, a pele coberta por tatuagens verdes e azuis. Seu crânio era alongado, com uma testa muito recuada e o cabelo aparado nas laterais, com uma faixa central que formava uma longa mecha na nuca. Em todo o corpo ele exibia cicatrizes feias de lacerações.
Nada disso, porém, chamava tanta atenção quanto seus vívidos olhos amendoados, que pareciam não ter pálpebras. Dizia-se que os bárbaros não dormiam.
— Você vai me matar? — perguntou ele, exibindo os dentes limados, pontudos como dentes de peixe.
Kuaracymiri se assustou. O monstro falava a língua delas. Mbaraká se manteve firme.
— Sim, eu vou.


Continua...

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