terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

[Vilson no TNB] Seres das Sombras 1

Oi, pessoal! Hoje trago o novo capítulo da saga de Mbaraká, a abayuká de V. M. Gonçalves que terá sua história narrada aqui no The Nerd Bubble. Se não leu a introdução, clique aqui e coloque a leitura em dia. Sem mais delongas, confira o capítulo 1 de Seres das Sombras!


Capítulo I: A Música do Mundo

Algumas guerreiras inimigas permaneciam lutando, mesmo depois de derrubadas e desarmadas, mas o ruído estridente das trombetas de barro indicava que os bárbaros estavam batendo em retirada, tendo perdido todo o gosto pela batalha. Era impressionante como eles conseguiam desaparecer nas sombras.
— Maldição — disse uma guerreira. — Parece que não levaremos nenhum prisioneiro hoje.
— Não sei se é mágica ou se eles aprenderam a se ocultar nas copas das árvores como macacos — gritou a capitã, frustrada diante do inimigo desaparecido. — Ei, não matem essa desgraçada!
Ela correu até um grupo de suas guerreiras. Seguravam uma mulher muito forte no chão, que insistia em lutar, apesar dos inúmeros ferimentos. Sob a lama e o sangue encrostado jaziam os restos de uma coroa de penas amarelas e muitos outros adornos. Era uma chefe de família, uma matriarca abayuká.
— É uma chefe! — gritou uma das guerreiras que a segurava. — É a última que sobreviveu! E eu a peguei!
— Não, eu a peguei! — disse outra, dando uma mordida no braço da prisioneira. — Vai ser um banquete e tanto.
— Vocês esperam que eu acredite que qualquer uma de vocês poderia segurá-la sozinha? — perguntou a capitã. — Sim, é uma chefe, e eu a conheço.
A cativa parou de lutar e encarou a inimiga.
— Sim, eu te conheço — disse a capitã. — Na verdade, eu comi em sua casa durante a Festa dos Mortos há alguns anos. E agora a encontro aqui, lutando ao lado dos bárbaros, matando suas conterrâneas, matando abayuká.
— E o que há de errado com isso? — protestou a cativa. — Nós sempre guerreamos entre nós!
— Sim, mas sempre nos unimos contra os bárbaros. E sempre mandávamos uma mensageira para anunciar a guerra entre irmãs. No entanto, você ia entrar em nossas terras sem aviso, com pelo menos duzentos bárbaros ao seu lado.
A cativa soltou uma risada amarga.
— Há bem mais que duzentos vindo por aí — crocitou. — Eles sentem nossa fraqueza e estão rastejando para fora das tocas.
— E você preferiu se aliar a eles. — A capitã agitou a cabeça amargurada. Encarou as guerreiras ao seu redor. — Nenhuma de vocês vai reclamar a prisioneira para si. Não comemos carne covarde.
Tanto a cativa quanto as guerreiras que a mantinham no lugar observaram em choque enquanto a capitã sacava sua ybyra. Segurou a rival pelos cabelos e atravessou seu pescoço com a arma. Seu corpo trêmulo caiu no chão, os olhos ainda arregalados, a boca escancarada.
— Não haverá festa nenhuma quando retornarmos à aldeia — disse a líder, diante das faces surpresas e manchadas de sangue das companheiras. — Não vencemos inimigas dignas hoje.
— Vencemos os bárbaros — objetou outra.
— Não. Eles conseguiram escapar. E esse monte de carne e trapaça tem razão: mais deles virão.
***
Mbaraká correu floresta adentro até notar que nenhuma outra abayuká seguia na mesma direção; ao contrário, suas companheiras haviam ficado para trás, confusas, como se tivessem perdido de vista os inimigos. Os bárbaros, por sua vez, seguiam fugindo e escalando as árvores mais altas.
“Devo seguir sozinha?”
O muriqui emitiu um grito estridente, como se respondesse sua pergunta.
Ela viu um bárbaro ferido que encontrava dificuldade em subir para as árvores e arremeteu contra ele, disposta a obter seu segundo troféu de guerra. Quando estava a dois passos de distância do alvo, sentiu uma sombra assomar sobre si, enquanto um inimigo caía dos ramos para atacá-la. Em um instante, o primeiro já empunhava o machado, pronto para rechaçá-la e o segundo a derrubara e tentava sufocá-la.
Então uma nova sombra assomou, como uma aranha de patas colossais caindo das folhas. O vulto pálido caiu ruidosamente sobre o homem que a detinha, agarrando-se a seu rosto e forçando-o a largar a abayuká e lutar por sua vida. O primeiro inimigo caiu sobre Mbaraká, mas ela segurou a mão do machado como pôde. Atrás de si ouvia os berros de dor do homem, além de outra voz, mais encorajadora, que exigia que ela lutasse.
Mbaraká golpeou o atacante duas vezes no rosto. Desequilibrou-o e virou o jogo, fazendo-o cair de costas e perder seu machado. A porta-escudos observou que os gritos haviam cessado e desviou o olhar para o corpo inerte do segundo bárbaro, cujo rosto jazia completamente destruído. O oponente esticou o braço para recuperar sua arma, mas ela não estava mais lá. Bárbaro e abayuká observaram o muriqui se jogando para os ramos mais altos, levando consigo o machado, sua lâmina de bronze brilhando suavemente ao captar um raio da luz do meio-dia. Mbaraká sorriu. O guerreiro, pasmo, ferido e cansado, tentou desajeitadamente se levantar para fugir, escapando temporariamente das mãos resolutas de Mbaraká, mas ela se prendeu a suas pernas, derrubando-o de cara no chão.

***

As guerreiras inspecionavam os arredores do combate para encontrar cadáveres das suas e coisas que pudessem saquear dos bárbaros.
— Ouviu isso? Esses gritos?
— Sim — disse a capitã, descrente.
Caminharam rapidamente, e a capitã averiguou que seus ouvidos não estavam enganados.
— Corda! Corda! Vamos! Corda! — dizia a voz feminina, encobrindo os resmungos abafados e chorosos de um homem de cara na lama.
Mbaraká, a menina porta-escudos jazia sentada sobre um bárbaro desesperado.
— Eu fiz um prisioneiro! — berrou. — Vocês vão ficar aí paradas ou vão me ajudar a amarrá-lo?
— Parece que pelo menos uma de nós fez um prisioneiro hoje — brincou a capitã.
— Parece que teremos um banquete afinal de contas — disse a outra.

Continua...

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