quarta-feira, 31 de agosto de 2016

[BLU] Agosto Folclórico

Oi, pessoal! Agosto está terminando e, para celebrar, venho contar uma coisa bem legal: as blogagens coletivas estão de volta! 
Ano passado, participei do projeto Literatura em Movimento dos blogs Café com Livro (da Helena Dias), Da Literatura (da Ana Karina Silva) e o Sacudindo as Palavras (da Denise Valente), e foi uma experiência incrível! Então, agora que estou juntando um grupinho de blogueiros parceiros para ajudar uns aos outros e bloggar em boa companhia, a ideia das postagens coletivas foram uma parte natural do projeto.
Embora agosto esteja no final (ainda bem!), ainda dá tempo de um post super especial em grupo, inspirado no Dia do Folclore Nacional - celebrado no dia 22. Como o assunto é vasto, delimitamos ao tema Minhas lendas favoritas. Como gaúcha de Porto Alegre, decidi contar pra vocês as cinco lendas mais legais da minha região:

1. Índia Obirici

Embora as versões da lenda se desencontrem em alguns pontos, a essência é sempre a mesma: a linda Obirici, filha do cacique da tribo Tapimirim, se apaixonou pelo belo Upatã, filho do cacique da tribo Tapiaçu. Embora o rapaz não desgostasse de Obirici, o problema veio na forma de uma rival para o coração dele - sua irmã ou amiga, dependendo da versão. Upatã, confuso e procurando ser justo, orou a Tupã por uma maneira de resolver a situação. O deus mandou-lhe a resposta em forma de sonho - por Sumá, uma deusa guerreira - e o rapaz contou às duas índias apaixonadas: haveria uma disputa de arco-e-flecha e a ganhadora se tornaria sua mulher. Ainda que Obirici fosse uma excelente arqueira, seu nervosismo a atrapalhou e ela perdeu a competição e seu amado. 
Desolada, a jovem sentou-se sob uma figueira e chorou. Tanto chorou que de suas lágrimas formou-se um córrego e os deuses se apiedaram de sua dor. Embora Tupã tenha vindo buscá-la, sua dor e suas lágrimas marcaram o solo gaúcho; o córrego - Ibicuiretã - já secou devido à urbanização do bairro Passo d'Areia, mas foi erguida uma belíssima estátua para que Obirici e seu amor perdido nunca sejam esquecidos.


Escolhi essa lenda por dois motivos: primeiro, interpretei Obirici numa peça da escola na quarta série e nunca a esqueci. Segundo, me identifico com ela e sua dor pela perda de um amor que era sua vida - minhas lágrimas não formaram um córrego nem nada, mas já passei por momentos bem ruins. 

2. João-de-barro

Segundo a lenda, o jovem índio Jaebé se apaixonou por uma bela garota e foi pedí-la em casamento. O pai dela então lhe perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo? 
- As provas do meu amor! - respondeu Jaebé. 
O velho gostou da resposta, mas achou o jovem atrevido, então disse: 
- O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto. 
- Pois eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se admirou com a coragem do jovem apaixonado e o velho ordenou que se desse início à prova: enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram de vigília dia e noite para que ele não saísse ou fosse alimentado. 
A jovem apaixonada chorava e implorava à deusa Lua que o mantivesse vivo. O tempo foi passando e certa manhã, a filha pediu ao pai: 
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
E o velho respondeu: 
- Ele é arrogante, falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
Esperou então até a última hora do novo dia, então ordenou: 
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Quando abriram o couro da anta, o rapaz saltou ligeiro. Seus olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e tinha perfume de amêndoas. Todos se espantaram e ficaram mais admirados ainda quando ele, ao ver sua amada, se pôs a cantar enquanto seu corpo, aos poucos, tomava forma de um pássaro!
E foi naquele exato momento que os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceram para sempre.
Por causa desse amor e dedicação é que o joão-de-barro constrói habilidade sua casa e escolhe uma parceira para a vida toda. 

Sempre adorei joão-de-barro e, desde que descobri essa lenda, achei a coisa mais fofa do mundo, então ela não podia ficar de fora.

3. Erva-mate

"Toda a tribo tinha partido para a guerra. Mas um homem, por causa de sua idade avançada, teve que permanecer. E ele ficou chorando no alto de uma colina, vendo os jovens guerreiros partirem. Ele se lembrava de quando era um valente guerreiro e como, agora, estava fraco e envelhicido. Sua única alegria era sua filha Iari, que já tinha recusado muitos pedidos de casamento para ficar ao lado do velho pai.
Um dia chegou ao rancho do velho guarani um viajante estranho, com roupas coloridas e olhos lembrando o azul do céu longínquo. O velho logo percebeu que o homem vinha de muito longe e recebeu o viajante com amizade. Iari foi buscar os melhores frutos da floresta e o mel mais doce das abelhas. O velho índio com os olhos cerrados para lembrar-se melhor das histórias de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade. Tudo era feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem agradáveis. No outro dia, com o sol raiando, o viajante já estava pronto para partir. Dirigiu-se então ao velho índio e disse:
- Você é uma pessoa muito boa. E a sua bondade merece ser recompensada. Eu sou um mensageiro de Tupã, espírito do bem. Pede o que quiseres e eu lhe darei.
- Nada mereço pelo que fiz, senhor! - respondeu o guarani. - Mas gostaria de um companheiro para a minha velhice, para que minha filha Iari possa casar e formar sua própria família. E só o que eu peço: um amigo fiel que fique comigo e me dê ânimo.
O mensageiro de Tupã sorriu. Em sua mãos brilhava uma planta repleta de folhagens verdes.
O viajante entregou a planta ao velho e disse:
- Deixa crescer esta planta e bebe de suas folhas que você terá o companheiro que tanto deseja. Esta erva traz em si a força de Tupã e trará conforto para todos os homens de tua tribo. E Iari será a protetora das florestas. As caminhadas de guerra serão menos cansativas e os dias de descanso mais felizes.
E desde então, Caá-Iari é senhora dos ervais e deusa dos ervateiros."

(Texto retirado deste site)


Novamente, as versões da lenda da erva-mate divergem bastante entre si, mas o cerne é o mesmo: foi dada aos homens como dádiva dos deuses a planta verde que esquenta o coração do gaúcho e nos acompanha quando estamos sozinhos ou em grupo!

4. Teiniaguá: A lenda da salamanca do Jarau - Rosane Volpatto

Há muitos séculos, quando caiu o último reduto árabe na Espanha, os mouros foram obrigados a fugir e acabaram aportando no sul do Brasil. Trouxeram consigo uma jovem princesa, transformada por magia, em uma enrugada velhinha, a fim que não fosse reconhecida e aprisionada.
Logo de chegada, deram com o Anhangá-pitã, o demônio dos índios. Contaram-lhe toda a história e o diabo resolveu ajudá-los. Deste dia em diante, a linda princesa passou a ser uma salamandra com a cabeça de pedra brilhante ou "Teiniaguá" e viveria em uma lagoa no morro do Jarau.
Mas eis que um dia, um moço sacristão que morava atrás da Igreja da aldeia, assoleado com o calor veio até a lagoa, com o intuito refrescar-se. Assustou-se ao verificar que a água fervia, feito chaleira quente e, de repente no meio dela surgiu a própria Teiniaguá. Ficou pálido de medo, pois sabia que tal bicho tinha parte com o diabo, mas sabia também, tratar-se de uma linda princesa moura jamais tocada pelo homem e aquele que conseguisse conquistar seu amor, seria feliz para sempre.
Num gesto rápido, o sacristão agarrou-a, colocou-a dentro de uma guampa e encaminhou-se às pressas para os seus aposentos atrás da Igreja. À noite ao descobrir a guampa, eis que se opera um milagre, a Teiniaguá tinha voltado a ser princesa e lhe sorriu pedindo-lhe um pouco de vinho. Louco de paixão, correu até a sacristia e roubou o vinho do padre. Todas as noites era a mesma coisa, uma romaria até a Igreja na busca do vinho, até que os padres começaram a desconfiar do sumiço inexplicável da bebida e invadiram o quarto do moço. A princesa tomada de susto, transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do Uruguai e, o sacristão, coitado, acabou preso.
Um crime tão terrível, roubar o vinho sagrado de Deus, só poderia ter uma pena à sua altura, e o moço foi condenado a morte no garrote vil.
No dia da execução, toda a aldeia reuniu-se em torno da Igreja. Teiniaguá sentiu um aperto no coração, pressentindo que algo ruim estava para acontecer. Se utilizando de magia, começou a procurar o seu amado, abrindo sulcos na terra, até chegar à igreja, no momento em que lhe foi possível interromper o garrotear do sacristão. Se ouve a seguir, um estrondo muito grande, que produziu muito fogo e fumaça e tudo afundou.
A princesa conseguiu salvar seu amado, mas os dois ficaram confinados a uma caverna muito funda e comprida no Cerro do Jarau e só se libertariam de tal encantamento, quando surgisse alguém capaz de vencer todas as provas de coragem e, depois de realizar um desejo que lhe seria concedido, desistir dele.
Duzentos anos se passaram sem que ninguém tenha conseguido quebrar o encanto. Até que em uma tarde linda de primavera, campeando o gado, Blau chega à furna de Jarau. Conhecia a lenda, pois sua avó charrua já tinha lhe assoprado no ouvido quando era criança. Sendo assim, foi entrando. Saudou o antigo sacristão das Missões e submeteu-se a todas as provas de coragem sem pestanejar. Ao término delas, foi levado à presença da salamandra encantada, que alertou-o sobre o consentimento de um desejo.
A resposta do gaúcho a espantou:
— Não desejo nada.
A princesa ficou cabisbaixa e desiludida, pois necessitava que ele aceitasse algo para que pudesse desistir depois, tal qual rezava uma parte do encantamento.
Quando o gaúcho montava seu cavalo para ir embora, o sacristão alcançou-lhe uma moeda de ouro como lembrança de sua estada. Sendo assim, não podia fazer desfeita e colocou-a no bolso.
Durante muitos dias, Blau nem lembrou mais do acontecido e até tinha esquecido da tal moeda. Então, lhe apareceu um bom negócio, um amigo queria desistir de criar gado e dizia-se interessado em vendê-los. Foi quando puxou a guaiaca e lembrou-se da moeda. Todos os bois não poderia comprar, mas quem sabe um? Retirou a primeira moeda, mas pelo peso percebeu que havia mais e saiu então uma segunda...uma terceira... e assim de uma em uma, conseguiu as moedas necessárias para efetivar a compra.
O amigo surpreso, tratou de espalhar a notícia. E todos ficaram estarrecidos, pois Blau era um gaúcho pobre, que não tinha "eira nem beira", de onde teria vindo tanta riqueza? Todo mundo sabe, que boato é que nem fogo, quando pega, ninguém segura, de ouvido em ouvido cogitava-se que o homem tinha feito um pacto com o diabo. Depois que correu a fama, ninguém mais quis vender-lhe nada. Tinha gente que se desviava quilômetros só para não encontrá-lo.
O gaúcho começou a sentir saudade de sua vida de antes. Algum tempo depois, não agüentou mais. Só tinha um modo de consertar tudo, era devolver a moeda mágica. Foi exatamente o que tratou de fazer. Partiu então decidido.
Chegando à entrada da gruta, contou toda a sua estória ao sacristão, depois pegou a moeda, colocando-a na mão do homem, dizendo:
— Eis aqui sua moeda. Agradeço-lhe o presente, mas não preciso dele. Rico eu era dono de alguma coisa, mas como pobre recebo de herança o mundo.
O encantamento foi quebrado com uma grande explosão. Das furnas saíram os dois condenados, transformados em um belo par de jovens. Casaram-se e trouxeram descendência indígeno-ibérica aos povoados do Rio Grande do Sul.

Mais uma lenda de amor e provações que não podia ficar de fora. Já mostra a influência dos jesuítas no território gaúcho, ao contrário das anteriores. 

5. Negrinho do Pastoreio

Essa é, sem dúvidas, a mais popular das lendas gaúchas; são poucos os que não conhecem a história do jovem escravo que, após perder o cavalo baio do estanciero cruel, foi por ele chicoteado e colocado nu sobre um formigueiro em uma noite gelada de inverno como punição. No dia seguinte, quando o homem voltou para ver como estava o guri, o encotrou ali, mas em pé sobre o formigueiro, sem ferimento algum, e com sua madrinha Nossa Senhora ao lado. O estancieiro pediu perdão, mas já era tarde: o garoto apenas beijou a mão da santa, montou o baio fujão e saiu pelos campos, conduzindo a tropilha que pertenceira ao homem de coração frio.  
Até hoje, os gaúchos acendem uma vela e oram ao Negrinho do Pastoreio quando perdem algo importante - cantando "Negrinho do Pastoreio, acendo essa vela pra ti. Espero que me devolvas a querência que perdi" -, confiando que o escravo salvo por Nossa Senhora possa encontrar qualquer coisa. 

Escolhi essa lenda para encerrar o TOP 5 por ser exclusivamente do Rio Grande do Sul e porque ela sempre me emociona.

Então, pessoal, essas são as minhas cinco lendas regionais favoritas e que acho que mais gente deveria conhecer. Não esqueçam de deixar um comentário dizendo o que acharam delas e as suas lendas brasileiras favoritas <3 

Um comentário:

  1. Existem muitas lendas a respeito de fontes que surgem por encantamento ou pelas lágrimas de uma bela indígena que chora seu amor perdido. Aqui em João Pessoa-PB todos conhecem a Lenda da Fonte de Tambiá que teria surgido a partir das lágrimas da filha do chefe tabajara pelo seu amor, o índio Tambiá.

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